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epistolar

16
Mar22

a casa dos meus avós

Para ti,

Nestes dias em que os céus estão a ser invadidos pelas poeiras do Saara, parece que Lisboa se transformou na casa dos meus avós: saio à rua e sinto-me a percorrer os corredores daquela moradia sépia, de outros tempos.

Dá-me a tua mão e acompanha-me: a casa dos meus avós era tão escura que, quando era pequeno, confundia as refeições com um espectáculo de pirotecnia. Passo a explicar: sempre que era peixe, a minha mãe artilháva-nos a testa com uma lanterna para iluminarmos o prato e distinguirmos as espinhas.

Como podes imaginar, na altura tornou-se para mim banal comer peixe com uma lanterna frontal. O que estranhava era não poder fazer o mesmo no refeitório da escola, onde o potencial era logicamente muito maior: será sempre mais divertido encadear a vista a colegas da primária do que a velhotes com cataratas.

Para os amantes de fotografia vintage, estes são os dias de substituir os filtros pela hashtag #reallife. Para mim, nestes dias a realidade tem sido outra: voltei a pôr a lanterna na testa e decidi encontrar os meus avós nas ruas de Lisboa.

Dá-me a tua mão e, mais uma vez, acompanha-me: mesmo sendo em vão, procuramo-los juntos?

Do sempiterno teu,

Pedro

01
Mar22

todas as cartas que nunca te enviei

Para ti,

Não imaginas a quantidade de cartas que te escrevo, e não te envio. Esta proximidade que estabeleço contigo é a mais sublime ilusão: fico feliz - mas mesmo tão feliz!! -, por imaginar que sentes borboletas na barriga por leres o que nunca partilharei contigo!

Um destes dias, por exemplo, contei-te quando fui expulso de uma aula de português, concluída a leitura de uma composição deveras original; já noutro dia, vim disparado narrar-te o quão poética era a árvore por que passei, com os ramos repletos de bolas de futebol…

Nada disto te relatei, assim como agora não te vou confidenciar o quão radiante fiquei por te ver sorrir, após surpreender-te com um presente inesperado. Mesmo febril e de olhos mirrados, as tuas bochechinhas dançaram e entrevi-as genuinamente livres e naturais, como dois amantes que se confiam um ao outro.

Haverá melhor razão para te continuar a escrever? Nunca saberei a resposta, visto que - tal como vês -, não te enviarei o que agora te dedico. Limito-me a aproveitar as borboletas que sinto na barriga para imaginar que sentes borboletas na barriga quando me lês. E sou feliz!

Do sempiterno teu,

Pedro

ps: um destes dias deveríamos levar as nossas borboletas a passear…

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